QUEM OU O QUE TE AGRIDE?

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Cansado de “engolir sapo”, um dia explodiu. A sentença é simples, curta, bonita e chega a ser poética, se não fosse trágica. Precisava chegar a ponto de explodir? O que será que faltou para que não explodisse? Quem ouvisse? Quem orientasse? Quem apoiasse? Quem libertasse? Se impor? As perguntas podem ser muitas, mas esse texto nasceu de uma “vontade de explodir” oriunda de um sentimento que identifiquei da maneira mais ridícula e, ao menos para mim, menos óbvia possível: opressão gerada por inúmeras agressões disfarçadas de meros comentários.

Agressão não precisa ser física ou até mesmo verbal. E eu demorei trinta e três anos para identificar que podemos conviver diariamente com pessoas que agridem psicologicamente, causando opressão que já desencadeia depressão e pode ser grave. A agressão poder vir até mesmo de maneira energética, acredito eu, sendo causada por um mero olhar de desaprovação ou desdém. Inúmeros suicídios acontecem diariamente e tenho consciência de que possivelmente essa crônica possar vir a evitar algum, embora isso seja “pensar longe”. Mas através da reflexão sobre esse tipo de opressão é possível não vitimizar-se e, com bons olhos, resgatar um pouco de amor próprio e autoestima necessária para seguir sem ater-se a opressão.

Hoje, refletindo muito, eu penso em vários, sem necessidade de exagero pois passam do que os dedos das mãos podem contar, conhecidos que de alguma forma convivem com alguém que os diminuem ou os fazem não ter vontade de dar um passo a frente por não saber lidar com as próprias frustrações. Isso é traumatizante para qualquer um e pode levar alguns a ficarem estagnados na vida, sem reação por não saber lidar com essa repressão.

Tem gente que, na maioria das vezes, nem percebe ou sabe como o faz, mas te agride, te corrompe, destrói um pedacinho de ti por simplesmente não ter empatia e responde a qualquer ato teu de forma a desdenhar o que tu fazes. Essas pessoas não sabem lidar com as diferenças e sentem necessidade de diminuir quem tem algo a mais para oferecer, o que a ela pode soar uma ameaça dado que ela nada tem. Isso gera direta ou indiretamente censura e faz com que tu te sintas “errado” por simplesmente ser diferente ou desejar pra ti algo que esta pessoa não quer. Em outras palavras, te censura por tu simplesmente ser quem tu és.

Isso é tão grave que deveria ser crime. Então, não deixe levar-se por qualquer tipo de agressão, seja ela verbal, física (nesse caso denuncie) e psíquica. Afaste-se se puder ou apenas refugie-se em fones de ouvido com boa música e, se possível procure terapia, porque ninguém é obrigado a conviver com gente frustrada sem ajuda. E no mais, lembre-se: se querem te diminuir é porque tu és grande.

VERGONHA ALHEIA: POBRE DE DIREITA

Meme retirado do site humor político.

É muito tenso começar com um título tão polêmico, mas ele não passa do resumo dos meus mais profundos sentimentos atuais: a vergonha alheia do pobre de direita. Fica ainda mais tenso, triste e ridículo quando ele insiste em passar vergonha na internet com frases dignas de sua maior expressão de ignorância e falta de orientação política e conhecimento em história. Aqui vão algumas #VergonhaAlheia

“Quando a toga se corrompe, só a farda resolve”, em outras palavras acho que ele quis dizer que “se a formação não ajuda, o militarismo dever entrar em cena”, é isso que diz o post de facebook de uma pessoa em minha linha do tempo. Abaixo mais uma amiga em comum comenta nesta postagem “verdade”. Detalhe: ambos jamais vestiram uma toga e muito menos entendem o real significado de uma farda, nem acredito que venham a fazê-lo. #VergonhaAlheia

A pessoa que comentou o mero “verdade”, esses dias já havia postado “votei em Bolsonaro mesmo pra meu filho cantar hino nacional na escola, se fosse no Haddad cantaria Pabblo Vittar”. É triste que essa pessoa não reconheça que a Pabblo Vittar é a voz de uma minoria, o povo LGBTQIA+, que morre todos os dias, um a cada 23 horas em nosso país (mais sobre a pesquisa pode ser lido AQUI). Essa pessoa, que acha que fez uma piada, não deve nem saber o que é contribuir para a comunidade de seu bairro, mas entende-se que a ela a visibilidade da drag queen Pabblo Vittar seja algo que “tanto faz ou tanto fez”. Claro, pois ela é hétero, branca, aparentemente bem de vida, não sofre ataques por ser quem se é, ou seja, uma privilegiada. Minimizou a Pabblo e assim toda uma comunidade e me ofendeu, sim (embora nem fã da Vittar eu seja), mas não respondi porque acho desnecessário briguinha de facebook. Essa mesma pessoa que, com esse comentário totalmente homofóbico, demonstra gostar de mim, até onde vai a aceitação dela eu tenho minhas dúvidas. Ah, esse deve ser o mesmo tipo de pessoa anti cotas pois acha que brancos e negros tem a “mesmas possibilidades”, vai vendo. #Vergonha Alheia

O pobre de direita que acredita que quem está deste lado é está dos lado do mais fraco é um coitado iludido. Já estive nessa pele onde a falta de conhecimento em história aliada a falta de senso crítico me fazia enxergar apenas a situação política nacional de maneira rasa e, risivelmente, para um pobre, elitista. O pobre de direita é uma piada principalmente para os governantes deste lado pois os mesmos se preocupam apenas com a elite e os empresários. Não, eles não ligam pra quem está empreendendo e começou sua lojinha ou pequeno comércio agora e sim para os grandes nomes do ramo. O pobre é só um “gado de manobra” de toda essa gente. #VergonhaAlheia

Fato curioso: o pobre de direita, na maioria das vezes é aquele que, embora ainda assim seja pobre, não podemos chamar de minoria. Faz questão de dizer que não é pobre, geralmente é hétero, branco e que se contenta em ser um “pobre mais abastado” pois tem carro, casa própria e pode pagar a faculdade dos filhos. Mas, desculpe lhe dizer, se é seu caso, mas tu que és assalariado, aliás todo assalariado é PO-BRE. Detalhe: a casa própria muitas vezes é original do projeto “minha casa minha vida”, o que tá tudo bem. Mas vai entender… #VergonhaAlheia

Não posso também esquecer de citar frases que vão além de “sou contra política de cotas pois acho privilégio para negros”, temos mais belas pérolas como “bolsa família é esmola”, “não precisava criminalizar a homofobia pois é tudo crime igual” e a, talvez, menos sensata de todas “pobre em aeroporto é absurdo”, quase sempre feita por um pobre (de direita) que não se acha pobre e ama uma viagenzinha em suas férias. Desculpa, mas tudo isso não me desce. Como respondi em um tuíte ao meu amigo João (que chamo carinhosamente de Xuão), apenas sorrio e aceno. #Vergonha Alheia

O mais lamentável disso tudo, porém real, é que o pobre de direita não compreende o que é política de direita ou de esquerda. Ele erroneamente apenas adere a pensamentos conservadores e neoliberais (que ele também não compreende), este cidadão absorve das premissas do contexto político um lugar que é seu por osmose. Muitas vezes original da submissão de um contexto familiar, a uma atribulação no espaço de trabalho, a qualquer motivo que não seja a capacidade ideológica, racional e consciente de decidir e de militar.

Eu não excluí de minhas redes sociais as pessoas citadas nesta crônica por terem essa visão política que eu acredito ser pobre e mesquinha. Sou totalmente contra a “cultura do cancelamento” (quando se exclui uma pessoa que comete erro ou a qual temos diferenças). Já fiz isso com uma outra pessoa antes, e até me arrependo, mas a mesma respondia a todos os meus posts sobre política com tom de deboche e eu acredito não sou obrigado. Celebro as diferenças em quase todos os campos da vida. Mas uma pessoa que clama por um “mito” e não percebe que o buraco é mais embaixo e faz parte da classe a qual esse ser “aclamado” não atende, ela merece no mínimo um alerta de “amiga, para que tá feio”.

SOBRE DAR A VOLTA POR CIMA

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“Olha eu aqui de novo. Viver, morrer, renascer, firme e forte feito um touro” esse é um trecho de Touro, canção que tenho ouvido muito (e recomendo) do cantor e compositor Johnny Hooker e cai como uma luva na introdução desta crônica pois sentei-me aqui para digitar exatamente sobre isso: reerguer-se, ou dar a volta por cima.

Tenho vivido esse período da vida, em que a gente deixa pra trás uma queda e começa a levantar-se. Acredito que essas são fases preciosas de apreciação da vida para melhor autoconhecimento. Meu 2019 tem sido isso e sinto imensa gratidão de estar aqui, de pé, para afirmar que até a pior das quedas, ou o fundo do poço, passa.

Claro que para isso tem um ponto de partida, o querer sair da pior. Eu quis. Eu foquei em estabelecer novos objetivos, resgatar meus pontos positivos, fortalecer meus pontos fracos para gerar melhorias em cima deles. Assim eu me vi refeito em pouco tempo, o que acredito não ser uma proeza digna de prêmio. Eu apenas busquei melhorar e isso deveria ser comum, mas não é. Ainda tem gente que fica no chão depois da queda e nem aceita a mão de quem a estende.

Se organizar direitinho todo mundo levanta, creio eu. Claro que não somos responsáveis por toda e qualquer pessoa caída ao longo da jornada da vida. Mas se pudermos fazer a diferença com mensagens positivas, sendo empáticos, pacientes e gentis com quem precisa de um pouquinho de atenção, estaremos fazendo um favor pra pessoa, pra nós mesmos e pro mundo, por levantarmos uma causa nobre.

Então bora focar em levantar da cama todos os dias observando as pessoas ao nosso redor e questionando: o que posso fazer pra levantar o amiguinho? Se posso fazer algo hoje já tenho o dia ganho. Mas se eu puder fazer isso por mim mesmo antes de qualquer coisa, aí sim, não tenho só o dia, mas a vida ganha.

LGBT NÃO É PAUTA, TETAS ESTÃO EM ALTA

Imagem internet (Madonna 1992)

Meu amigo e vizinho Sandro Soneira me sugeriu uma pauta que ao primeiro momento podia passar batido pois foge a minha alçada estar relacionado ao futebol, mais precisamente o grenal deste domingo. Mas analisando os dois fatos peculiares e que nada tiveram a ver diretamente com o jogo, senti que me era possível abordar o evento, sim.

Vamos ao que interessa, dois fatos marcaram o jogo, além da disputa dos times Grêmio e Internacional, foram eles: um pedido de casamento entre duas mulher (sim, um casal lésbico) e uma influenciadora digital e DJ de destaque no Rio Grande do Sul tirou sua camiseta e ficou com os seios a mostra (cobertos apenas por dois X, um em cada mamilo). O que poderia chamar mais atenção da mídia entre esses dois fatos quase que memoráveis em um grenal? Isso mesmo as tetas da tal DJ, que não vou citar nome pois, como dizia Fernanda Young, “não devemos bater palma pra maluco dançar”.

A repercussão “positiva” da moça que exibiu os seios sem motivo algum a fez chegar a um programa de uma rádio de renome daqui, que a convidou e deu espaço para que seu exibicionismo ficasse ainda mais evidente. Não contente com essa glamorizarão de um ato tão banal, um dos jornalistas integrantes do programa de rádio anunciou que estava saindo de cena pois não compactuava com o “circo”, não nestas mesmas palavras. Eu poderia ficar aqui descrevendo por um longo, talvez até cansativo, texto o que acho de errado em ver a nudez sendo banalizada e realizada em um ambiente inconveniente. Mas, embora eu acredite que o ato de mostrar-se nu deva ser para fins políticos e artísticos, eu nada tenho a ver com essa tal moça e pouco ligo se ela ganhou seus minutos de fama de tal forma.

O que me intriga nisso tudo é que também houve outro ato marcante na partida, um pedido de casamento. Tem coisa mais linda que um casal que decide passar sua vida juntos e dividir a jornada de mãos dadas? Tem, pro povo brasileiro tem, o corpo, em outras palavras, as tetas (que foi o que foi exibido na arquibancada do jogo). O fato de ser um casal LGBT pode ser fator dominante para não ter sido manchete ou terem elas sido convidadas a participar do programa de rádio? Sim, acredito eu.

A pauta LGBT interessa “pero no mucho”. O LGBT é ótimo se fizer todos rirem, não acham? Quando o LGBT é piada tudo é engraçado. A gay piadista típica surge aos montes no cinema, na novela, na TV. Até conseguimos fugir deste estereótipo, mas então caímos no molde novela das nove, como a que está sendo exibida. Nela temos Agno e Leandro, não nego achar lindo que tenhamos certa representatividade. Mas um casal gay que em dado episódio trocam declaração de amor finalizadas de um abraço mais me parecem dois amigos ou um casal da terceira série que não sabe (e está longe de saber) o que é amor. Desconheço um casal homossexual que não finalize um “te amo” com um lindo beijo selando o seu afeto.

Ah, mas as crianças, Braian? Criança vai ver e depois achar normal, não pode. Vai querer fazer igual. Primeiramente, sim, criança vai achar normal e não verá malícia alguma pois elas não nascem com isso que nos é imposto com o tempo. No mais, fazer igual? Acha mesmo que teu filho vai ser gay por ver beijo gay na novela, cinema, teatro ou na história em quadrinhos? Sinto te informar mas eu cresci vendo beijos hétero e até mesmo cenas de sexo puro, na TV e demais mídias e desculpe, mas não fui “convertido”, sou gay, gente, foi mal. Não tona-se gay, se nasce gay. Tanto que não me venha com o termo “opção sexual”, prefiro dizer “natureza sexual” porque sempre me veio naturalmente.

A sociedade sempre aceita o gay, o LGBT, seguido de um “MAS”. Pode ser gay, MAS não pode ser afeminado. Pode ser homossexual, “MAS” pra quê se montar de drag? Pode ser lésbica, “MAS” não pode ser “machorra” (aliás jamais use esse termo na minha presença, sou capaz de respondê-lo com um tapa na boca). Enfim, aonde o teu “MAS” existe uma condição de existência persiste em demonstrar tua homofobia velada. Se tu te sentes afetado por este parágrafo, ou toda a crônica,deve ser porque talvez alguma desconstrução ainda te falte. Mas não julgo ninguém, eu mesmo tive que me conhecer e conhecer muito do universo LGBT até ser o que hoje eu considero como “desconstruído”. O que importa é aceitar que homofobia não pode passar batido, já as tetas, que fiquem em sutiãs, ou manifestações políticas e artísticas e é isso.

NÃO ESQUEÇA DE DESISTIR

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A gente passa a vida toda encarando o ato de desistência como errado, feio e vergonhoso. Mas e quando a coisa não anda mesmo, não sai do lugar e não há força, nem reza braba, que faça o que tu queres acontecer? Não seria desumano tu ficar preso a uma determinada situação, seja trabalho, namoro, casamento, amizade ou projeto se tu já investiu muita energia e nada rendeu?

No quesito relacionamento (amizades também) quando a reciprocidade não se faz presente uma hora a gente cansa. Não é errado desistir nesse momento, errado é insistir onde se semeia e não dá fruto. Recolher-se e reconhecer que já foi dado seu máximo chega a ser bonito, acredite. Não é um ato falho nem muito menos vexaminoso. E no mais, o máximo que vai te acontecer é abrir portas para seguir adiante e, quem sabe, encontrar algo/alguém melhor na próxima curva da vida.

Quantas vezes já nos frustramos com trabalho e estudo, nos encontramos insatisfeitos e sem perspectiva de realização mas insistimos? Perdemos, então, um tempo valioso em algo que, na maioria das vezes, já não faz parte da gente. Aquela demissão às vezes é a luz no fim do túnel para que tu te jogues em algo novo. Claro que não levanto a bandeira de ficar desempregado sem necessidades, sejamos racionais. Analisemos as possibilidades de nos dedicar a algo que nos complete como pessoa, sempre que possível.

Ninguém precisa bancar o durão ou o resistente e viver aturando algo que lhe é ruim e maléfico, “engolir sapo”. Porque sim, maus trabalhos, relacionamentos e amizades podem ser tóxicos e arruinar com a autoestima de alguém. Saúde mental é algo que devemos priorizar sempre, em cada passo a ser dado na vida, sem ela nos tornamos meros zumbis.

Nunca se esqueça que desistir às vezes é necessário. Mais do que proporcionar novas possibilidades na sequência, a desistência tem um quê de libertador. E convenhamos, ninguém nasceu pra ser aprisionado pelo que quer que seja, um velho emprego, um amor que já morreu ou uma amizade não recíproca. Dos fins sempre nascem os mais lindos recomeços. Que assim seja.

ENCAIXOTANDO

Confesso que primeiramente te coloquei na caixa do ranço. Afinal tu eras um rolo do meu ex e me sentia muito ameaçado com tua existência. Então achei que essa era tua caixa para sempre, achei errado.

Então, inesperadamente, tu te aproximaste e já encaixotei como crush, aquele boy que a gente de cara já tem interesse em se envolver, acha o máximo e acredita até que pode evoluir pra ser um relacionamento e virar um mozão.

Em seguida fiquei meio que me sentindo jogado pra escanteio quando me revelou que não pensa em se envolver tão cedo. Isso meio que quebra o clima e faz a gente perceber que caiu na “caixa da amizade”, a famosa friend zone. Fiquei tristes até, mas depois repensei e percebi que amigos são raros e eu tava no lucro.

Acontece que a gente já tinha todo aquele frescor de querer ter algo, nossa atração explicita por todas aquelas mensagens. Então, mesmo sem desejar algo sério, nos propusemos a encarar uma caixa pequena, a caixa do sexo casual. Podemos também chamar esta de caixa de “amigos com benefícios “.

CARTA ABERTA DO ESCRITOR

Confesso aqui que meu maior medo ao começar um projeto sempre foi não ter identificação do público. Assim foi, óbvio, quando comecei o blog, em 11 de setembro de 2009, sim, ele já tem dez aninhos. Ficava triste horrores quando via quantidades baixas de acessos, mas isso tudo passou quando analisei melhor as coisas. Vi que nem sempre a culpa é do autor, tem muita gente que acontece por aí por pura sorte.

Percebi também que quem tava tentando dialogar com o público errado e promover-se em meios não aderentes ao que eu fazia era eu. A arte, o projeto, a crônica, não estava necessariamente errada ou ruim. Eu apenas não encontrava a forma certa de fazer com que o público que gosta do que eu faço, literatura, se dispusesse a absorver o que quero transmitir. Não compartilhava nos locais certos, não corria atrás disso. Era confortável escrever por escrever. Mas o fato é que eu queria mais que isso.

Demorou muito para eu decidir correr atrás do que quero pra mim, a escrita, o poder da palavra, o comunicar-me bem através disso. Pois eu acordei pra vida e nem todos vão despertar comigo e me seguir numa caminhada que é minha. Eu insistia que amigos e familiares me lessem e não percebia que isso pode ser um erro. É um caminho muito individual o do fazer a diferença e expressar-se para fazê-la. Só quem corre atrás do ônibus sabe a adrenalina diária da vida de “corredor”.

Pode ser absurdo tentar me dedicar a viver de espalhar literatura, que tenho já como ofício, em um país que desestimula cultura e sabedoria. Ainda mais em tempos tão obscuros como os que temos vivido. Mas vai além de mero desejo, vaidade ou um ato egoico. Sinto que a cada postagem compartilhada, cada crônica finalizada, chego mais perto do que acredito ser minha missão como ser humano na terra e isso ninguém pode tirar de mim.

Por isso eu não me contentei com escrever duas vezes na semana em meu blog (que aproveito aqui pra anunciar mudança para três vezes na semana) e obter os acessos, fiéis porém ainda não muitos, que tenho. Eu fui trás de mais oferecendo minha arte ao jornal municipal. Com meus medos no bolso mas fui. Enviei e-mail para seis veículos diferentes e fui ignorado por cinco. Por sorte, ou merecimento (vai saber), um jornal gostou do meu trabalho e aceitou publicar uma crônica já me pedindo pra enviar outra. E assim tenho sido publicado desde agosto semanalmente, embora sem nenhum vínculo e sabendo que posso a qualquer hora não estar mais lá. Mas olhando pra trás vejo que é uma conquista enorme pra quem nem em seus mais intensos sonhos acreditava em ser publicado.

Isso vai muito além de ter um texto disponível pra um público muito maior do que o que já tinha. Pois a gente muda um pouco de nós mesmos a cada criação e mudamos também um pouquinho de quem recebe essa criação. Não importa se alcanço uma pessoa, dez, cem ou mil, é tudo sobre o quanto eu consigo tocar e sentir-me tocado com aquilo que crio e gerar identificação, pois sem ela nada se move. Então quero agradecer a quem me lê e afirmar que, acima de tudo, serei, sim, meu maior leitor, meu maior crítico, buscarei melhoria constante e exigirei de mim a sensação de plena satisfação e realização a cada obra, por maior ou menor público que eu tenha e é isso. Muitíssimo obrigado até aqui.

CARTA PARA DAQUI DEZ ANOS

* Uma carta para mim

Querido Braian de 43 anos, começo esta carta te pedindo desculpas pela total falta de originalidade, uma vez que todo escritor de crônicas já escreveu uma carta para si, mais novo ou mais velho. Mas espero que te sejas útil no futuro, ou seja, em teu presente.

Espero, do fundo de meu coração, que tenhas realizado aquele sonho, que cultivas desde 2009, de ter um livro (fisico) lançado. Espero que realmente que isso tenha acontecido e que tenha sido, até mesmo, mais de um. Que isso tenha sido satisfatório como realização pessoal, tendo vendido muito ou pouco.

Desejo muito que já tenhas encontrado o par ideal, aquele que tu sonhas que vai te acompanhar para o resto da vida. Embora tu tenhas total consciência de que não há necessidade d’outro alguém para ser feliz ou completo e, há muito tempo, acredite que não existe esta história de “metade da laranja”. Somos realmente todos inteiros desde o nascimento, Que haja, acima de tudo, amor próprio nesse momento.

Que o que tu costumas chamar de ranço, que tens sentido constante com a situação política nacional atual e alguns de teus conflitos internos aos 33 anos, não te domine nem te deixe menos esperançoso. Que tenha sido apenas uma fase de revolta que serviu para dar origem a muitos textos novos, repletos de boas críticas sociais.

Que não tenhas perdido a doçura com que olhas pra vida quando estás diante de um animal, criança ou qualquer outra banalidade que te faz sorrir. Tens mantido um contato lindo com tua criança interior até aqui, os 33, de onde escrevo, e seria triste de perdesse isso ao longo da jornada da vida.

Espero também que estejas em paz com teu corpo. Que ame cada parte de ti, estando ou não nos padrões que a sociedade tem como “bonito” ou “aceitável”. As influências externas podem ter te afetado um dia, mas se teu olhar sobre ti mesmo for bom e sensato tu serás feliz e te sentirás pleno.

E, por fim, que tu possas, hoje mais que ontem, olhar para trás e ver o quanto evoluíste e traças-te teu próprio caminho. Que tenhas orgulho do homem que és hoje, sendo grato por cada pessoa que te ajudou nessa formação e cada lição que te conduziu a sabedoria atual. Que a evolução tenha sido constante e que siga sem parar na busca da realização de ser sempre quem se é.

Atenciosamente, Braian de 33 anos, um eterno guri.

LITERATURA LGBT – “FRAGMENTOS” CAIO FERNANDO ABREU

Faz um longo tempo, acho que mais de um mês, que não faço post com dica de literatura LGBT por aqui. Hoje trago um dos maiores nomes, se não o maior, literários do país, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948 – 1996). O autor tem uma peculiaridade em sua escrita ao descrever temas como sexo, angústia e solidão. Tanto que bons leitores identificam com facilidade um texto de sua autoria. Sua obra apresenta uma visão extremamente dramática do mundo contemporâneo, imbuído de muita poesia. Fato curioso sobre a vida de Caio, ele era o único escritor assumidamente homossexual no período da ditadura militar.

FRAGMENTOS

Este livro é um contraste do que é o trabalho do autor e do que Caio é capaz de nos apresentar. Vai do romântico, puro e inocente amor ao sexo bruto, pervertido que beira ao nojento.
“Sapatinhos Vermelhos” nos trás uma mulher que vivencia a loucura de uma noite de prazeres extremos. Uma mulher libertária que desprende-se da visão social de “correto” e aventura-se sexualmente.
Já em “Sargento Garcia” temos a aventura de um jovem de 17 anos relacionando-se com um militar mais velho. As palavras do escritor são excitantes através dos relatos de momentos quentes vividos pelos personagens. Um dos melhores contos de doses eróticas que já li.
O conto “Uma História De Borboletas” é seu conto mais poético nesta obra. Gira em torno de um casal gay e um dos homens que está enlouquecendo, literalmente, a ponto de ter de ser internado. Ele enxerga borboletas em seus cabelos. Descrever mais que isso seria spoiler, mas é intenso, lindo e contém um final poético e muito satisfatório.

Frase marcante:
“Tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?”

Um livro sobre afetos, desejos, doações e situações que qualquer um de nós poderia viver dia desses. Gostei do livro e não foi pouco, viu.

A GAY “DIREITA”

Conheça a história da gay “direita”

Era uma vez um gay que fazia questão de não parecer gay. Achava que não parecia, quando na verdade todos sabiam de sua natureza sexual e que ele, assim como todo gay, transa com rapazes e gosta disso. Essa gay criticava as gays que davam pinta, as chamadas afeminadas, diminuía quem fosse diferente do que julgava ser “seu tipo de gay”. Afinal, como fazia questão de dizer, ela era uma gay “direita”.

A gay “direita” também se dizia contra a parada gay e parada do orgulho LGBTQIA+. Achava tudo um grande show de exibicionismo, afinal não tem “dia do orgulho hétero”, porque os gays merecem ter um e “esfregar na cara da sociedade” sua sexualidade com um bando de veado cantando Lady Gaga em plena Avenida Paulista e tumultuando um belo domingo de sol?

Essa mesma gay “direita” dizia que respeitava a família. Que o beijo gay em novelas e cinema é desnecessário e que deve-se respeitar a família pois ninguém precisa “impor a sexualidade” pra toda sociedade. Esses eram alguns dos pensamentos deste ser exemplar, a gay “direita”.

Também a gay “direita”, elegeu o candidato que disse que homofobia não existia. Candidato esse que se declarava homofóbico mas algumas gays, assim como a gay “direita”, insistiam em ver como “exemplar”. E como nunca havia sofrido qualquer ato discriminatório, jamais olhou ao redor ou preocupou-se com o todo. Sua experiência lhe bastava.

Acontece que essa gay se apaixonou, por outro gay, claro, e casou. Direito este adquirido pela luta árdua após anos e anos de protestos de quem vai pra parada gay, vai pras ruas e se expõe em nome da comunidade gay. Também lhe foi adquirido o direito de adotar filhos, pois foi batalhado, também de maneira árdua pelos gays que, ao seu ver só sabiam fazer barulho nas ruas.

Um belo dia a gay “direita” foi agredida. O que fazer? É claro, registrar um B.O. como crime de homofobia, pois foi o que realmente aconteceu. Agora, a gay “direita”, adivinhem, recorreu aos direitos todos que foram por anos reivindicados por seus semelhantes. Pelos gays que militaram, fizeram barulho, deram a cara a tapa, pediram por beijo, sim, em novela e cinema. Os mesmos que fizeram parada LGBT por sua visibilidade e pela conquista de tudo, que para uns é desnecessário e que para essa comunidade é direito como ser humano possuir.

A verdade é que eu já estive na pele desta gay, há exatos dez anos atrás. Mas minha inquietude e desejo por informação me moveu a enxergar mais do que o meu próprio umbigo. Ainda bem. O Brasil, e o mundo, está cheio de gente assim e se não fizermos questão de informar e militar, mesmo, continuaremos com esses pensamentos retrógrados perpetuando a sociedade.

Será que agora a gay “direita” entendeu a importância de toda militância? Esperamos que sim e que ela passe pro time dos que fazem barulho e não seja parte dos que ficam em cima do muro apenas se beneficiando da luta dos outros. Afinal, quem cala é conivente e isso é um reflexo de uma ignorância que lutamos muito para ser vencida.